Procurar limitar o corpo humano, ou qualquer corpo, ao objecto físico que ele apresenta seria desde já estar a reduzir e descontextualizar um objecto que necessita do all-over que o circunscreve. Procurar matematizar o corpo e cair no erro da ciência cartesiana através do somatório das partes como um todo organizado desde o seu atomismo também poderia tornar-se uma visão demasiado obtusa e hedionda. Assim para compreendermos o corpo devemos compreender que a ele estão associados duas vertentes fundamentais, o tempo e a cultura. Dimensões que ultrapassam o simples volume normalmente definido pelas três dimensões mais conservadoras. Podemos e devemos sempre integrar o corpo numa sociedade que vive numa ecologia muito própria, muitas vezes urbana e cosmopolita mas também que pode variar para o outro extremo, tão natural e animal. Para além dessas constâncias de lugar e cultura devemos compreender que todos os organismos, por mais caóticos que sejam, tal como é o corpo humano, são acima de tudo um organismo, um organismo vivo e morto ao mesmo tempo, onde as transformações ocorrem em fracções temporais perto do inexistente. Na sociedade actual, o somatótipo sofreu um processo de aculturação que o encaminha para um patamar ilusório semelhante ao santo graal. A procura de um corpo definido, magro e belo leva pessoas a terem como única preocupação a sua obtenção de forma por vezes desfocada e pouco sustentada. Infelizmente, a mediatização de que esse corpo se associa a um corpo belo, de sucesso e jovem leva muitas vezes a uma exacerbação da parte das pessoas que o procuram de forma muitas vezes descontrolada. A ocidentalização do ideal corporal leva a que mesmo nas culturas mais remotas exista esta preocupação e por isso já ninguém estranha que mesmo nestas culturas existam modelos que contemplem essa imagem, muitas vezes sendo ela trabalhada de forma tão enganosa através de uma computadorização divina. No Futuro, embora existam por vezes rasgos na procura de uma idealização mais saudável, volumosa e curvilínea do corpo, tudo parece prever para uma imagem cada vez mais oposta a esta, cada vez mais matemática e química que poderá mesmo ser atingida por um meta-corpo, robotizado ou um tecno-corpo adulterado pela nanotecnologia que se incrusta no ser biológico. No desporto a interpretação do corpo deverá ser sempre feita através de uma compreensão do corpo humano como um ser antroposocialtotal e dessa forma tudo continuará a ultrapassar a simples visão limitada do que é superficial ou orgânico. Não desconectando o lugar do corpo nem o corpo do lugar mas compreendendo que a sua simbiose é a base de toda a existência social e histórica.
O maior problema passa por o homem estar presente no mundo através do seu corpo. Muitas vezes sendo observado por uma imagem, com um corpo físico remetendo a uma superficialidade preocupante e irreal. Devemos compreender que este corpo é uma expressão de experiências culturais e que nele, todas elas, as experiências, estão cravadas como tatuagens eternas. Mas como relembro das aulas de introdução ao pensamento contemporâneo, o corpo não pode ser sem estar (num lugar) ocupando um espaço no mundo das coisas e ao espaço do corpo está indissoluvelmente ligado a sua temporalidade. Tempo e espaço ou lugar, conjugam-se com o corpo.
Devemos por isso estar atentos à questão da procura de um corpo de elite mas numa busca muitas vezes desorientada e convulsiva. Vários são os métodos apresentados para a obtenção desses resultados milagrosos, mesmo através de anúncios que fazem lembrar as primeiras explicações para a origem da vida, onde juntando barro e areia a centeio, e regando todos os dias surgiam de lá carneiros ou escorpiões, não sei se era bem esta a combinação mas serve para realçar o absurdo de tal ideologia. Os anúncios expostos rondam o mesmo absurdo como se fossem obtidos resultados perfeitos, indolores e momentâneos. Mas como todos sabem e bem, muitos são os casos de resultados hediondos, imperfeitos e irrecuperáveis. Traumatismos provocados no corpo que acabam por matar todo e qualquer orgulho que a pessoa tem em si. Não existem mulheres feias, existem mulheres pobres. Numa clara assunção a que este tipo de cirurgias para serem bem-feitas devem ser realizadas por profissionais ultra-especializados, que normalmente cobram fortunas. Além disso o resultado destas operações por mais perfeitas, esteticamente, que possam parecer, não o são em termos de saúde. Já que envolvem riscos vários, trata-se sempre de uma operação, e não é através delas que uma pessoa vai ter uma melhor qualidade de saúde, de vida. Por isso talvez o caminho deva ser outro, ou mesmo vários caminhos e compreensões diferentes. Desde logo que por muito que se trabalhe o corpo, e tendo em consideração que a nossa vida não gira só em torno do corpo, o nosso corpo será sempre “imperfeito” perante o que é visto em revistas onde as imagens são tratadas e trabalhadas ao pormenor, lembrar que acima de tudo ainda somos humanos. Para além disso compreender que o trabalho do corpo e o educar do corpo para uma vida, alimentação e vivências, saudável implica algum critério e norma reguladora e que por tudo isso é um processo longo, demoroso e sem resultados bombásticos e instantâneos. O nosso corpo não é propriamente uma mousse ou gelatina onde se junta pó a água ou leite, mexe-se e voulá. Por fim, compreender que os estilos de vida, principalmente cosmopolitas, afastam-se cada vez mais do trabalho do corpo e de uma vida saudável. Todos os dias tentam monopolizar-nos com produtos que fazem tudo menos bem à nossa saudade e temos cada vez mais mecanismos, processos e condutas que nos orientam para uma vida sentada, ou no mínimo de pé e parada. Quer um caso como o outro, não são propriamente muito favoráveis para o que pretendemos. Muitos são aqueles que vão gozando a vida e o corpo vai sendo levado para os maus caminhos que o orientam. Mas como já dizia a música, “quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga…”, então enquanto novos, quase todos os indivíduos são despreocupados quanto aos resultados das suas acções, muitas vezes a curto prazo, por isso imagine-se a médio ou mesmo longo prazo. Se fosse possível criar uma imagem desse pensamento, o resultado possível seria muito provavelmente uma escuridão maior do que o fundo de uma falha numa placa tectónica.
Nenhum comentário:
Postar um comentário