O Atletismo é uma das modalidades abordadas na Escola, praticamente desde o início da criação da disciplina de Educação Física, anteriormente chamada de Ginástica, já que esta consistia basicamente na realização de elementos gímnicos. Para além disso o Atletismo é uma modalidade que tem acompanhado o homem no seu processo histórico, naturalmente numa fase inicial este foi praticado de forma inconsciente e pouco orientada mas que com o tempo começou a ganhar o interesse de pensadores e filósofos das eras de ouro. Desde a era Grega onde se começaram a desenvolver metodologias de volumes e frequências de cargas que o Atletismo começou a ganhar alguma ciência. Naturalmente numa fase inicial mais baseada na tentativa-erro e na imitação do que os melhores iam conseguindo realizar mas desde aí houve uma preocupação para além da simples prática. Com o tempo e com a prática foram existindo novas formas de testar e medir o rendimento e a evolução dos atletas. Mesmo os objectos de treino foram sendo transformados, adaptados à especialidade de cada disciplina nesta modalidade e os seus atletas começaram a ganhar morfótipos diferentes e distintos. Desta forma também os resultados começaram a ser melhores e começou-se a associar os feitos dos melhores atletas a semi-deuses, só estes capazes de atingir tais feitos. Esses mesmos feitos começaram a ser adorados por todos e especialmente pelos mais pequenos, não fossem eles a fonte de toda a magia e fantasia que existe no mundo. Assim a sua própria educação foi começando a ter bases orientadoras nesse sentido e por isso a Educação Física e a modalidade de Atletismo já é anterior ao sistema educativo institucionalizado e por isso devemos compreender a sua dimensão e estado para realmente darmos valor a esta modalidade. Até porque, infelizmente, esta modalidade tem ganho ultimamente algum descrédito pelos mais jovens, não fosse o surgimento de alguns atletas nacionais de renome internacional e muito provavelmente a situação ainda poderia estar pior, isto apesar de todas as actividades e eventos que têm sido realizadas.
Os alunos têm a ideia que o Atletismo consiste exclusivamente em correr, principalmente correr muito durante muito tempo. Esta imagem deturpada que os alunos têm talvez não seja por culpa própria mas por todos os docentes que leccionam esta modalidade muitas vezes de uma forma desconectada, pouco fundamentada e estruturada, com pouco conhecimento teórico e prático do que deve ser feito e como deve ser ensinado o Atletismo na Escola. Muitas vezes as aulas de Atletismo consistem no “corre até eu mandar parar” ou então na realização do circuito do corta-mato, muitas vezes a horas pouco saudáveis para o corpo ou mesmo sem nenhum tipo de preparação para este tipo de prática. Aliás, não raras vezes os professores procuram utilizar essa mesma corrida como prescrição de activação geral para toda e qualquer modalidade que queiram praticar de seguida, errando em dois pontos: a desconsideração pelo Atletismo metendo para um plano secundário se não mesmo inútil e o facto de realizarem uma activação inespecífica para o que pretendem trabalhar de seguida. Perante isto não admira que o Atletismo seja mal-encarado pelos alunos e que os resultados em termos de participação de alunos em provas não seja muito elevado, mesmo a presença de novos atletas neste mundo surge de uma forma mais relacionada com um desejo pessoal, ou por ligações familiares, em vez de uma ligação a uma instituição como é a Escola. Assim perguntamos como pode ser alterada a situação? Tendo noção que as respostas são várias e que provavelmente nunca atingiríamos o fim das possíveis explicações, poderemos compreender que a formação dos docentes e uma maior ligação entre instituições pode ser catalisadora de um maior desenvolvimento de todos os indivíduos que compreendem estes dois mundos, tornando numa simbiose profícua de resultados. A formação dos docentes existe na Faculdade, e pelo menos na nossa, é de excelente nível, quer prático, quer teórico, quer didáctico. Mas muitas vezes os alunos não estão devidamente atentos ao que realmente interessa e não se formam na base de um enriquecimento pessoal mas apenas na procura de um valor quantitativo naquela cadeira. Então, quando chegam à Escola não existe grande aplicação de todo esse conhecimento que lhe foi transmitido. Muitos são aqueles que cometem os erros com que muitas vezes foram atingidos pelos seus professores enquanto alunos. Penso que isso não é bom para ninguém, nem para a própria imagem dos docentes, esta que começa também a descredibilizar depois de ter estado em pé de igualdade com médicos e engenheiros ao longo de tantos anos. Muitos dirão que não podem ser peritos em todas as modalidades, sacudindo a água do capote, sendo que têm alguma razão, mas podem e devem ser peritos em educar e conhecer as técnicas de ensino de todas as modalidades. Se não conhecerem, e aqui refiro-me a todas as modalidades novas, recentes, que vão sendo incluídas no plano curricular, então devem fazer formação para que possam desempenhar o seu papel da melhor forma. Muitas vezes o problema está numa acomodação do próprio docente, que acaba muitas vezes por “prescrever” os mesmos exercícios e utilizar as mesmas estratégias ao longo dos seus trinta ou mais anos de carreira, não procurando em momento algum actualizar-se e em procurar novos conhecimentos. “Já está tudo inventado e a mim ninguém me ensina” são as respostas dos mais néscios. Contudo, a asofia e o egocentrismo costumam ser parentes próximos. Também para os mais cépticos não é necessário que sejam super atletas para saber fazer tudo, aliás até só os atletas de decatlo conseguem ser tão versáteis, esses sim, super-homens. Mas o know-how deve ser invariável à formação e à condição de docente.
Mais do que o conhecimento didáctico, os professores, devem compreender que o Atletismo abordado na Escola pode ser rentabilizado através de outras áreas, como a área da biomecânica. Inicialmente esta área pode parecer distante e difusa, principalmente quando a desconhecemos nomeadamente quanto às suas potencialidades. O mesmo acontece com a Física e Matemática que são normalmente observadas como disciplinas muito teóricas e com pouca aplicação prática. Mais uma vez devido à abordagem que é feita muitas vezes pelos professores nas várias aulas. Todas estas disciplinas e áreas são agora abordadas de uma forma mais natural e mais relacionadas com a realidade. No entanto, a estranheza ainda afasta um pouco todos os intervenientes deste processo. No caso da biomecânica principalmente por estar associada a uma imagem de laboratório, com muitos fios ligados e com a utilização de muitos computadores. Mas a biomecânica não se esgota a estas imagens e existem campos mais simples e aplicáveis que não requerem tantos mecanismos e dispêndio de economias elevadas. Além disso os princípios fundamentais da biomecânica podem e devem ser usados para rentabilizar o rendimento dos alunos e despertá-los para uma realização técnica mais eficiente e eficaz. É para este campo que queria que os professores fossem despertos, pois quando analisamos as diferenças que existem entre o Atletismo realizado no Alto Rendimento e o Atletismo praticado na Escola parece estarmos a falar de dois mundos diferentes, que não podem ser sequer comparáveis devido às diferentes condições que existem, nomeadamente de meios e de tempo disponível em cada um dos locais. Mas as diferenças ainda podem ser maiores se não compreendemos que um mundo pode ser fundamental para atingir e compreender o segundo mundo, como uma introdução ou formação realizada com critério e objectividade. A Escola pode tornar-se uma rampa de lançamento para a detecção e desenvolvimento de crianças e adolescentes com enormes potencialidades. Para isso o professor na Escola deve estar desperto, atento, e deve ter uma capacidade de observação, análise, que lhe permita compreender o que pode ser melhorado no aluno e quais as progressões metodológicas que devem ser utilizadas para que os alunos atinjam um patamar superior de rendimento, para além da sua própria vontade em se superarem. Compreendendo princípios básicos como a utilização e rentabilização de forças através de princípios básicos da biomecânica ou o simples entendimento no relacionamento entre frequência e amplitude podemos fazer com que os alunos atinjam resultados impressionantes. Convêm para isso que os professores estudem e experimentem, exercitem as várias teorias que podem ser aprendidas nas várias aulas mas também devem acompanhar, se possível, os treinos de atletas de alto nível, falar com treinadores e mesmo com vista a uma melhor formação dos alunos na Educação Física, levar os alunos aos centros de treino destes atletas de renome nacional ou internacional. Dessa forma motivariam mais os seus alunos, poderiam motivar também mais os atletas através do apoio das crianças e adolescentes, e existiria uma maior ligação entre os dois mundos. Muitas vezes como se faz no Futebol, por ser a modalidade que atraí mais os jovens, e onde os resultados são muitas vezes irrisórios já que existem resistências óbvias feitas pelos clubes. Assim teríamos mais um caminho que poderia potenciar esta aproximação entre a Escola e o Alto Rendimento. Tem existido alguma preocupação no sentido inverso, já que são vários os exemplos de atletas que vão às escolas ou procuram realizar eventos regionais ou nacionais nesse sentido. O último caso que me recordo foi do nosso melhor velocista de todos os tempos, Obikwelu, que em conjunto com uma organização própria procurou realizar provas de velocidade, quarenta metros e salto em comprimento, denominadas de Mega-Salto e Mega-Sprint, numa clara alusão a heróis e com vista a determinar os melhores dos melhores a nível nacional e assim possibilitar aos alunos uma procura na sua superação, aproximando-os do nível de rendimento encontrado nos atletas de nível regional e nacional. Assim para além do habitual corta-mato, que durante muito tempo foi a única referência que existiu no panorama escolar, também ele associado aos atletas de melhor nível que tínhamos no país, que eram de fundo ou de cross, existem agora mais provas tal como foi supratranscrito e acredito que num futuro próximo poderão existir mais provas se existir também uma procura e investimento nesse sentido por todos os agentes.
Assim poderemos compreender que os campos de investimento são vários e todos eles com possíveis resultados que roçam a excelência. Em todas as áreas o investimento prende-se mais com um investimento teórico e físico do que propriamente monetário. Naturalmente para realizar provas de nível regional e nacional é preciso dinheiro, mas as bases, o trabalho feito na Escola e principalmente na aula, em cada aula, não custa mais do que empenho e estudo por parte do professor e penso que é aqui que todos podemos marcar a diferença e despoletar uma mudança evolutiva com sentido crescente e fomentada de forma sólida, consistente e congruente com o que se pretende. Os alunos por certo também ganhariam outro gosto e apreciação pelo Atletismo e penso que todos, mesmo todos, sairiam beneficiados desta situação.
Para que tudo isto aconteça muitas mudanças tem de ser feitas, para além das já faladas, também é necessária uma mudança no sistema educativo no sentido de não se repetir todos os anos os mesmos processos. Já que muitas vezes são os próprios alunos a queixarem-se desta situação e a desvalorizarem o valor da Educação Física. Não existe um processo lógico, sequencial, contínuo com vista a uma progressão cada vez mais complexa e evoluída, exigente. Para isso deveriam existir ficheiros individuais de cada aluno sobre o seu rendimento e comportamento, questões de ordem social e mental, para que o professor que “pegasse” na turma no ano seguinte pudesse ter uma melhor noção do que se tinha passado e não se tivesse de despender tempo com avaliações diagnósticas e em procurar encontrar as melhores estratégias para a turma e para cada aluno de forma individual. Ou então, os professores acompanharem as várias turmas ao longo dos vários anos da sua formação, não deixando de fazer esses mesmos ficheiros para o caso dos alunos que reprovam ou mudam de escola. O ideal, e que até foi alvo da minha reflexão ao longo do ano como estagiário, seria fazer o que até já se faz em algumas escolas e se faz nos estabelecimentos superiores de ensino, que era ter um professor, ou vários professores, devido ao elevado número de alunos em algumas escolas, para cada modalidade. Assim, o ensino seria mais específico, orientado e com mais fundamento. A possibilidade dos alunos evoluírem seriam maiores já que trabalhariam com profissionais de cada modalidade e assim todo o processo poderia ser melhorado. Acredito que este possa ser o caminho que melhor serve todos os que o coabitam.
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