quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Diamante perdido

Andando pelos caminhos que o meu corpo me leva, vou olhando à minha volta sem perceber realmente o que me rodeia, sei onde estou mas nada me dirige sentimento, apenas a infeliz noção de não pertencer aqui. As pernas cansam, os braços caídos e a esperança já perdida distâncias atrás, não sei porque continuo a caminhar, talvez no fundo não queira já o fim, talvez seja a memória que me vai puxando e empurrando para a frente. O vazio é grande, e a cada rajada de vento e chuva, mais um bocado de carne se vai despegando de mim no pouco que o esqueleto ainda sustem. O olhar triste, não percebe o que o distingue, o seu brilho e chama há muito foram substituídos por rios e mares, onde a água é tão escura que já não permite ver mais do que a escuridão na alma que a sustenta. No céu já não há luz, parece que os holofotes se partiram ou partiram para outro lado. O coração bombeia apenas dor, e as veias, rasgadas pela loucura da solidão, deixam sair o pouco que as preenche. Não sei se existirá amanhã, quanto muito mais um segundo do dia de hoje, a luta à muito foi perdida e a vontade de lutar foi-se perdendo em golpes soltos contra o vazio. Comigo levo todos os sonhos do mundo, mesmo aqueles que sei que nunca poderão ou poderiam existir, a triste consciência de que o passado e futuro não se ligam pois não existe presente que o sustente esse mundo maravilhoso, perfeito e irreal. Contudo, em mim, nada me separará desse ser viajante na mente e no espaço que um dia sonhou encontrar-te e ter-te dentro de mim. Tudo se vai desfazendo enquanto ando, transformando mesmo as mais belas das formas artísticas e arquitectónicas em nada mais do que pó, a poeira levanta rapidamente e desvanece-se no espaço que habita na minha cabeça como uma espiral para um buraco sem fundo, um buraco que ingere tudo sem nunca perceber o sabor que retira de cada dentada. Assim o universo que me envolve, é imenso, mas imensamente mais pequeno do que aquele habita dentro de mim, daquele que carrega dentro de mim mais toneladas que muitos sentimentos e sentidos têm. O doce sabor da vida vale apenas na memória mais consciente, aquela que nos faz viver, mesmo que tantas vezes adulterada pela própria mente. A sua mistificação é mais do que suficiente para iludir o olhar do mais pobre dos desesperados, assim trabalha a mente perante o diamante perdido.

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