Quando se pensava que a sociedade já caminhava para um desapego grande aos costumes e valores dela mesma, que a socialização se estava a tornar cada vez mais impessoal e interceira, eis que caminhamos ainda de forma mais avassaladora para a descaracterização do autêntico, pessoal e vivo cidadão. Após a invenção e colonização mundial dos telemóveis, internet e computadores, que em grande medida são um passo fabuloso na evolução humana, que tornaram o tempo minimal e encortou distâncias de continentes ao alcance de um clique, eis que surge mais uma mutação no sujeito através das redes sociais, nomeadamente aquele que mais gente contempla. O princípio é fabuloso e bem utilizado permite aos seus utilizadores publicitar o seu trabalho, reviver na medida do possível emoções e memórias do passado e de pessoas que foram de alguma forma importantes, permite conversar e combinar encontros entre estes e mesmo criar novas relações com pessoas que possivelmente nunca veríamos na vida. Contudo, como disse, este é o princípio, e para algumas, espero que mais do que visualizo e imagino, é o caminho e utilização habitual diária, ou seja usam um instrumento fabuloso para catalisar e desenvolver a sua vida de forma profícua e quiçá prolifera. No entanto, existem aqueles que vivem e consomem-se dentre deste cosmos, que publicitam e expõem a sua vida até à exaustão, quantas vezes sem sentido e com apresentações sobre as rotinas mais básicas e simples da vida como o seu prato de comida ou onde estão ou como se sentem. A necessidade de atenção e carinho é de tal forma preocupante que levam-me a considerar se não existirá já um síndrome facebookista. A ânsia por conquistar uma quantidade determinada de likes e comments é de tal forma grande que acabam muitas vezes por perder respeito por si e pelos outros e expõem o que deveria ser privado e íntimo. Mesmo o desrespeito pelo momento, pelo presente tornou-se absurdo, pois o que interessa não passa pelo viver e sentir a emoção da bela paisagem, de sentir o belo gosto de um prato, ou de estar com os amigos ou aquela pessoa especial a sós e celebrar esses momentos, mas sim o mostrar a tudo e todos, no fundo a ninguém que realmente interesse, o que se está a fazer. Sou todo a favor de postar fotos à posteriori, é até de alguma forma um bom baú para mais tarde recordar. Mas até que ponto muitas destas pessoas vão olhar para trás, aquelas que publicam no momento o momento, e ter algum tipo de emoção em relação à tal experiência? Como sempre penso que cabe a cada um decidir e sinceramente não sou superior a ninguém a nenhum nível para julgar as pessoas, mas arrepia-me a consciência como é que se pode estar a perder o fundamental, o simples, o puro, o momento, o presente, o irrepetível.
Olá,
ResponderExcluirEstá aqui um bom texto. Tocas naquilo que me parece essencial: a desmesurada ânsia por uma coletivização massiva e sem critério, e o desrespeito pelo momento presente.
Tal como em tudo, a problemática é de natureza humana, não de natureza tecnológica. Os defeitos e imperfeições humanas são maximizadas pela tecnologia. Estou em crer disto.
Marcelo
Nem mais Marcelo, os catalisadores provocam isso mesmo, uma emersão do melhor ou pior das pessoas, ou dos objectivos que temos para esses mecanismos ou processos. Depende da utilização que lhe dá-mos e o sentido para o qual o orientamos.
ResponderExcluirAbraço
Pedro Silva