O ser humano é bastante inocente e ingénuo quanto ao seu sentido de vida. Ao contrário dos animais que nascem a saber o que têm de saber, o ser humano cresce e amadurece percebendo que quanto mais avança mais tem noção do pouco que sabe e o quanto desconhece. Não só em termos de conhecimento mas essencialmente de experiências, o ser humano evolui tendo a noção do quanto perde muitas vezes por ser racional e por ser pensador. É certo que evolui enquanto raça para um domínio territorial sobre as outras espécies mas não deixa por isso de se enfraquecer enquanto catalisador e criador de momentos de transcendência, de arte, de superação do ser no âmbito pessoal e antropológico. Procura cada vez mais mecanismos e aparelhos que substituam a interacção que possa ter com o seu ambiente, "facilitando-lhe" a vida mas sem compreender o quanto o está a amputar na sua extensão e potenciação. Não acontece apenas nesta demanda pela vida ócia e de um anarquismo puro sobre o que o rodeia, o ser humano perde essencialmente por não compreender o momento, o sentimento, o sentido que as essências, objectos e substâncias que estão ao seu redor possuem. Normalmente isso só acontece, essa realização que algo era fundamental e mágico, quando já passou, quando se gastou, quando já partiu. Aí, com lamuria, e normalmente em desespero, o ser humano procura voltar ao seu passado, tenta reviver o que não é repetível, sentir aquilo que não sentiu ou que não teve noção que sentiu. A ânsia do dia de amanhã ser melhor, de o futuro ser mais risonho, priva o ser humano de compreender que o actual é que é construtor do futuro e organizador do passado. Que só percebendo e entendendo o quanto podemos fazer hoje, em cada dia, é que se ganha realmente experiência, que se enriquece e se realiza os sonhos, que se projecta um ser que definhará com um sorriso nos lábios e emoção nos olhos. Muitas pessoas perdem demasiado tempo agarradas aquilo que nunca irá existir verdadeiramente nas suas vidas, o passado, pela impossibilidade já supratranscrita e também ao futuro que sem mecanismos, sem locomoção e concepção no presente jamais existirá para além do plano, do projecto, do esboço que é a pobre mente humana. Por isso, muitos são aqueles que se arrependem, muitos são aqueles que vivem dos ses e dos talvez, infelizmente as probabilidades só existem para se equacionar padrões, e se os padrões são de o esperar, de o aguardar, do sonhar acordado, então mais não se pode esperar que esse padrão se revele e se comporte sistematicamente.
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