sexta-feira, 27 de abril de 2012

Eu sou eu

Um dia destes perguntaram-me quem é que eu era, que tinham ouvido falar de mim mas que não sabiam quem eu era. Perante isto eu pensei exactamente o mesmo, acima de tudo por falta de uma definição consistente e precisa. Eu sou eu, basicamente isso, tal como refiro no perfil. É difícil falar do próprio, acima de tudo é um ponto de vista que é elaborado pela recolha de informação fornecida pelo exterior e o interior. Provavelmente serei, ao contrário do que foi filosoficamente escrito, o ser que melhor me conhece. Acima de tudo um ser que pensa demasiado e que por vezes se excede no que diz e escreve, mas acima de tudo no que pensa, já que o que sai para fora e é impresso de alguma forma, é bem mais contido pois foi racionalizado interiormente. O facto de ter nascido em condições desfavorecidas e ter enfrentado ao longo de vários anos situações de fragilidade de vária ordem, sempre me levou a encarar a vida de forma muito simples, orgulhosa e humilde. Pode parecer contra-senso as últimas duas características, a questão é que orgulho tem a ver com o dar valor ao que se tem e ao que se observa em torno de nós, felicidade por se atingir certos parâmetros e em ter por perto pessoas que nos enriquecem a mente e o espírito. Humildade porque quando sofremos e quando nos vemos privados de muita coisa que é desbaratada para outros, damos mais valor ao que realmente tem valor, o simples e vivo. Agradeço imenso a quem me criou e educou ao longo de todos estes anos, familiares e amigos que sempre estiveram com o máximo para mim e a quem tento sempre retribuir o que me foi destinado. Devo muito à vida e tento vive-la ao máximo, dando tudo de mim a ela e a todos os que estão presentes nela. Para quem não me conhece ou faz considerações como julgamento mais não posso fazer do que continuar a viver a minha vida e acreditar que não vou ser encarado por todos de igual forma, que isso é normal e saudável, e que mesmo com o meu bom ou mau exemplo para essas pessoas, que possam aprender e crescer também, tal como eu aprendi e cresci com todos. Agradeço a todos, os que me deram bons exemplos e aos que me deram maus, aos que me ajudaram e àqueles que de alguma forma, mais consciente ou não, me castigaram. Acima de tudo, obrigado.

Portugal cada vez mais pequeno...

Há cerca de 2 anos decidi definitivamente em sair de Portugal, apesar de na altura ainda estar num período lectivo e de ter imenso trabalho na faculdade, apesar da minha mente já estar mais do que ocupada com material para a constituição de uma tese e de trabalho para construir e resolver na escola, só pensava em sair do país o mais cedo possível. Não que não aprecie aspectos nele, pelo contrário há locais e pessoas que me encantam e acredito que irei ter esse sentimento eternamente, mas o sentimento geral era o oposto em relação a todas as demais substâncias. Mais do que as questões de ordem financeira que não permitem ao sujeito encarar a vida se não para um plano momentâneo e normalmente só de cumprimento de deveres, foi o âmbito social que me deixava cada vez mais perturbado. A pequenez da vida das pessoas e da sua forma de ser e estar na vida, encarando a vida sempre com raiva e inveja, sem educação e sentido, procurando sempre publicitar o que têm e o que não têm, a procura em defender o seu posto quando ninguém sequer lhes tenta tirar isso, a falta de partilha de princípios e de informação que levassem a uma maior coligação e força entre todos e em cada um. A selva cada vez parecia mais densa e alta. Na altura, vários foram os que consideraram má ideia a partida para fora, irresponsável, sonhadora, que afinal a situação do país não era assim tão má e que iria inverter num sentido melhor. Que as propostas que chegavam, alguns por mérito próprio outros por oferta sem pudor, eram encaradas por alguns como o sonho de uma vida e o caminho a seguir sem qualquer reflexão ou consciencialização. A inactividade e passividade dos sujeitos era por vezes tal que me dava vontade de os despertar com mais do que água fria, não só pelo sentimento em os querer ajudar porque sentia carinho e amizade por essas pessoas mas também para que elas não me dessem motivos futuros de decepção e tristeza. Passados cerca de dois anos, acredito que o país está ainda pior, não por culpa daqueles que tem os holofotes sobre eles, mas dos que agora se queixam que deviam ter ido para fora, daqueles que se vendem ainda mais, dos que se defendem com tudo pelo seu posto quando ninguém lhes quer tirar nada, por todos aqueles que ouvem e deixam andar toda a situação social e económica, por todos aqueles que acima de tudo, gostam de sofrer e de se fazer de coitados e perante uma ajuda ou uma procura de partilha de informação se sentem atacados. Todo o ser humano tem direito ao seu caminho, só tenho pena que julguem quem de forma mais correcta ou não tão certa quer e procura ajudar. Também aprendemos com quem diz asneiras e toma sentidos errados, mas devemos procurar ouvir e entender todos. No meio de tudo alguém terá sempre um pouquinho de verdade e de certeza no seu juízo. O conhecimento pode assustar, mas a estupidez assusta claramente mais.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Publicidade

Engraçado, se não mesmo caricato, como o ser humano reage à divulgação de um produto. A forma como é apresentado o produto e a credibilização que lhe é dada baseada através da apresentação de estudos ou factos são determinantes. A história tem nos apresentado vários casos de produtos que sendo de base muito semelhante, mas por terem sido apresentados em tempos diferentes ou por uma companhia diferente de marketing, tiveram resultados diametralmente opostos. Lembro-me de um dos desenhos animados que foi apresentado em cinema pela primeira vez ter um enorme sucesso mundial, ser muito semelhante a um de autoria asiática produzido quase duas décadas antes e no entanto praticamente ninguém o conhecer no mundo ocidental. Ou de uma tablet que uma década antes de ser agora tão bombástica foi apresentada com carácter exploratório e nessa altura basicamente só ser referenciada em revistas da área. Engraçado como o marketing e a gestão deste funcionam. Acima de tudo é mexer com o básico da necessidade humana, se apresentarmos uma ideia como "olha e isto que tal, talvez dê jeito ou seja de qualidade" ou se a apresentarmos como "isto é realmente muito bom, indispensável" tem resultados completamente diferentes. Mais do que esclarecer aqui se os produtos tem ou não qualidade, isso interessa ao consumidor atento e que não queira desperdiçar tempo e dinheiro, é interessante como pintando um pouco ou quadro ou dando-lhe umas lufadas de ar podemos obter resultados tão impressionantes. Outro caso que me lembro bem, pois é bem mais recente, é de um filme que é no seu processo e substância tal e qual o de outro mas com mais efeitos e milhares de horas de digitalização e teve um rendimento de várias centenas de milhões de dólares de diferença. Tal e qual como apresentar água com um copo de vidro ou numa caneca de metal. Felizmente, hoje a divulgação da informação permite-nos rapidamente reparar nestas farsas, mas nem por isso a maioria dos consumidores continua a deixar de se enganar, por vezes até pelo mesmo produtor. O caso mais berrante talvez seja o de dois filmes que apresentam exactamente a mesma sequência cinematográfica durante um período de cerca de cinco minutos, mas que no entanto foram produzidos com alguns anos de diferença. Será que já não existe sequer preocupação em tentar não enganar o cliente, ou será que por outro lado até já se aproveitam da sua cegueira? Parece-me claro que acima de tudo, todos eles sabem que o mais importante é "vender" o produto através dos meios de comunicação, o mais importante é ter fogo de artifício por detrás de um produto que não tem qualquer brilho.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sai da tua mente

A música para além de nos permitir voar e flutuar por ares que nunca testamos alcançar, para além de nos fazer por vezes imergir em águas profundas e frias onde muitas vezes nem um pequeno raiar de luz atinge a sua superfície, permite-nos também sair de nós mesmos, sermos algo mais, superiores, transcendentes, melhores. Conduz dentro de nós impulsos que nos encaminham para uma performance melhor, seja ela de aprendizagem ou de rendimento puro, a música é a alma do corpo. É também baseado numa música que este título surge, uma música forte que te exige o máximo, um grito a uma libertação mental e física, de energia pura e na procura do ser autêntico. Acredito que é necessário uma concentração máxima para se atingir estes estádios, são momentos que se atingem apenas com muito treino e meditação, apesar de serem momentos de explosão e derrube de barreiras, são baseados em longos períodos de introspecção e onde apesar do caos aparente a homeostase está terminada. O perfeito equilíbrio do corpo, homeostático, é um estado de consagração pessoal momentânea, existem sempre novas metas, novas barreiras a quebrar, não fosse o objectivo ser ainda mais e melhor, e não fosse a compreensão desse estado ainda mais consciente quanto mais perto se está dele sem nunca se estar verdadeiramente. São apenas etapas, consolidações do ser e do estar num tempo e espaço muito próprios. A nível psicológico, e divido apenas em níveis os vários campos físicos e meta-físicos para uma compreensão mais natural do leitor, a minha perspectiva já apresentada há muitos posts atrás é completamente diferente, só quando saímos verdadeiramente de nós é que sabemos o que somos, o que queremos e para onde vamos. A contemplação pessoal tal e qual como uma objectiva exterior ao ser, é que está a salvo da margem de erro sempre típica da análise interior. Assim, resta-nos fazer o esforço de olhar cada vez menos para o umbigo e ver o reflexo de nós nos olhos de outrem. 

Sonhos e memórias

Nos últimos tempos tenho pensado sobre o valor que atribuímos a tudo. Sendo que o ser humano tem como prática mais comum o julgamento e avaliação do que o rodeia, dando-lhe um valor significativo para si de alguma forma, até que ponto essa avaliação é realmente real e medida? Carece, acima de tudo julgo, da consciência dessa mesma avaliação, do raciocínio e razão, conhecimento através da maior obtenção de informação possível, dessa mesma substância. Foi deambulando nesse mesmo julgamento sobre julgamentos que me questionei afinal o que terá mais valor, a recuperação de uma memória e a procura da sua vivência de alguma forma ou o entendimento de um sonho, do seu significado na mente e na vida. Apesar de serem ambos de esferas diferentes da consciência humana, o julgamento do seu valor é possível e poderá de certa forma até orientar o pensamento do sujeito. As memórias tem uma característica fundamental que os sonhos normalmente não têm, arbitrariedade do sujeito, uma classificação e análise interior que faz com que essa memória seja colocada em estantes mais proximais ou distais. Se por um lado umas são facilmente recuperáveis, outras por carência de importância ou por recalcamento psicológico são jogadas bem lá para o canto do labirinto. Mesmo quando acomodadas nos vários ficheiros, as memórias tem tendência a serem seladas com um carimbo que é pouco imparcial, as memórias más poderão ser vistas de forma mais agravada do que na verdade foram vividas e sentidas, ou por outro lado, fechadas com um bom pano quente sobre as costas, amortizando a dor a que elas estava associada. Depende acima de tudo também das vivências futuras sobre o mesmo tema ou a forma como as reflectimos. Ou seja, o nosso bibliotecário é pouco equitativo e recto na sua organização mental. Por sua vez, os sonhos, por muito estranhos que possam parecer, completamente fora da realidade existente e do possível, apesar de poderem e serem muitas vezes controlados por nós, são mais directos e estreitos ao sub-consciente, ao que não é julgado e documentado por um bibliotecário. Talvez por isso mesmo sejam por vezes tão desorientados e difusos, dependendo acima de tudo da análise de cada um, introspectiva e do exterior, sendo que ambas acabam por ser sempre retrospectivas. Não raras vezes, é este mesmo campo que nos alerta e desperta para o que se passa verdadeiramente no exterior, fornecendo-nos informação que por falta de atenção ou capacidade de retenção não absorvemos. Assim talvez não seja de mau tom começar a dar mais valor a esse meio e contestar mais e reanalisar com mais conteúdo e sentido o meio anterior, das memórias.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Dança

Existem vários momentos e experiências que nos fazem sentir no céu, num espaço de transcendência onde nada dói, nada preocupa, nada faz pensar, apenas se sente uma energia diferente por todo o corpo. Percorre-nos com enorme força e vivacidade e deixa-nos contudo com um sentimento de leveza, de purificação e exaltação. Marcar um golo, ter uma excelente nota num exame, o primeiro beijo, festas de anos, um novo contrato ou ir para um novo projecto, são momentos que nos fazem sentir assim, tais como muitos outros, perdidos de felicidade onde nos sentimos a tocar as nuvens. Contudo são apenas momentos, que nos enchem o dia mas que são essencialmente vividos num instante. Existem para além destes, actividades que nos enchem e preenchem profundamente, de cima a baixo, de um extremo ao outro, e que são também elas de transcendência fora do comum, acima de tudo porque são vividas e sentidas intensamente durante o momento em si e não fora dele, que nos catapultam para outro mundo. São exemplos disso, a música, a dança, a pintura, o desenho, o cinema, corrida de longa duração, nadar, conversar num café com os amigos que raramente vemos mas que tanto os sentimos, momentos de cumplicidade pura e íntima, etc. Mais uma vez não serão os mesmos momentos para toda a gente vividos de forma semelhante, provavelmente para alguns de forma oposta, mas certamente existirá indivíduos que se revêm. Experiências incomparáveis e inesquecíveis que nos fazem percorrer campos a que não estamos habituados e que nos exaltam o cérebro de hormonas, mostrando claramente a sua vivacidade e energia dentro dele. A dança, apesar de não ser dançarino, é provavelmente uma das experiências mais puras e reais de todas as que mencionei entretanto. Na dança não existem segredos, não existem omissões, não existem mentiras. Para se poder dançar, a solo mas principalmente com um par, é preciso dar e mostrar tudo o que temos, não o que está no nosso rosto e corpo, mas o que está dentro de nós, aquilo que realmente nos move e mostra aquilo que somos. A dança é no fim, o verdadeiro espelho do verdadeiro eu, e dentro dela, com a música representando a nossa vida, o ritmo o nosso batimento de coração, expressa-se toda a nossa personalidade e carisma. Expõem-se o eu a nu e encarna-se o par como um só.