quinta-feira, 31 de março de 2011

"Trabalhar" com crianças

Desde que cheguei a Londres, a minha vida tem mudado bastante, a minha forma de ser e estar também. As responsabilidades são outras, a forma de pensamento também é outra e a vontade de viver é outra. Para esta mudança, que acaba por não ser muito radical perante o que já era, mas mais uma consolidação de todo o meu ser, muito contribui o meu trabalho, onde sou amplamente recompensado pelo que faço, tenho orgulho e vontade em trabalhar,  e sinto-me realizado no meu meio. Antes, isso era muito raro acontecer em terras lusas. Durante a semana trabalho com mais de 400 crianças diferentes, em sítios diferentes, com instalações diferentes, meios diferentes e com pessoas diferentes a auxiliarem o meu trabalho ou eu o delas. Mas são principalmente as crianças que me tem colocado cada vez mais questões na vida, a forma como vivem, como interagem, como sonham e como brincam fazem-me pensar na verdadeira essência de viver verdadeiramente. Naturalmente o seu conhecimento é reduzido, mas talvez por isso mesmo, elas vivem realmente a vida sem grandes ilusões em relação ao que realmente é simples e que realmente importa na vida. Não estão intoxicadas nem manipuladas por uma sociedade castradora e por isso a sua imaginação é fabulosa. Conseguem, por vezes, colocar-nos em situações e questionarem-nos aspectos que nunca teríamos pensado por serem eles tão simples, e no entanto para elas tem todo o sentido e simplicidade, quando deveríamos ser a nós a actuar e pensar dessa forma. A nossa vontade em complicar tudo e complexificar o que mais simples existe torna-nos cada vez mais asnos. Afasta-nos verdadeiramente do que deveríamos ser, naturais, puros, simples. Claro que as crianças vivem por vezes num mundo de fantasia e ilusão, e só lhes faz bem sinceramente, enganam-se facilmente e são "enganadas" com pequenos truques de magia. Fazem birra por pouco e contentam-se também com o mesmo. Mas no final a sua felicidade é claramente superior à nossa. É engraçado ver como mudam facilmente de humor, não por futilidade ou arrogância como os adultos, mas pelo simples facto de o seu mundo ser mais puro. Desta forma, a minha observação e, porque não, o estudo destes pequenos seres tem dado mais sentido e valor a cada momento da minha vida. Elas tentam ser cada vez mais como eu e outros adultos, e eu tento ser cada vez mais como elas...

segunda-feira, 28 de março de 2011

Sucesso

Ao longo dos anos, fui amadurecendo, compreendo que os nossos objectivos dependem essencialmente da nossa intenção em os obter. A mente humana, a capacidade geral do homem, possibilita que este consiga atingir praticamente tudo o que ambiciona ser ou atingir e mesmo os seus limites físicos podem ser ultrapassados graças à brilhante mente que possui e que lhe permite ir ao infinito e mais além. Mas como qualquer ser humano, os sonhos por vezes encaminham-nos para uma focalização demasiado egocêntrica e virtual. Podemos realmente atingir esses sonhos e sermos até semi-deuses mas será essa a verdadeira felicidade do ser enquanto ser completo e alegre? Temo que a resposta dependa do sentimento e carácter de cada um. 
As prioridades vão-se alterando ao longo da nossa vida, essencialmente porque o conhecimento vai sendo melhorado e isso leva-nos para patamares de performance e estabilidade que nos garantem uma felicidade diferente da obtenção do sucesso por vitórias monumentais. As concretizações parcelares e mais abrangentes são mais satisfatórias, dão-nos mais gozo, não nos cansam tanto e permitem-nos viver sem grandes castrações.
O sucesso normalmente é atribuído aqueles que atingem as altas montanhas nas diferentes áreas, que milhões anseiam alcançar e por isso para esses estes são ídolos, mas talvez não  estranhamente estes adorariam ser como esses, simples, normais, comuns, com uma vida fora da mediatização e do flash que encadeia todo e qualquer movimento por mais natural que este seja.
Por isso, após os vários anos, e também porque ainda muitos anos tenho, espero eu, pela frente, a mentalidade está cada vez mais para ser um esse e não um este. Os triunfos fora da ribalta têm outro saber, o sabor do produto natural, sem corantes...

domingo, 27 de março de 2011

Viver no estrangeiro

Após uns meses de vida no estrangeiro e de ter realizado algumas viagens de períodos mais curtos a outros países fora de Portugal, dou agora mais valor a tudo o que se diz e faz, como emigrante.
Fora do país somos pessoas diferentes, com semelhante génese ao que éramos anteriormente, mas com diferente fenótipo. O meio que nos envolve torna-nos mais completos, mais preenchidos pelas suas vivências e conhecimentos, desperta-nos para momentos de congeminação que até ao momento não teríamos tido se nos mantivesse-mos no mesmo nicho. Estes momentos são quer para o que somos, quer para o que nos rodeia, torna-nos mais lúcidos e objectivos, mais organizados e clarividentes, prepara-nos mais para a selva dando-nos utensílios mais diversificados e enriquecidos. As dificuldades que surgem e os novos desafios, sejam eles materiais, humanos, etc, promovem revolução de sentimentos e pensamentos que nos levam a uma vontade de superação maior para que exista prazer no bem-estar do nosso ser nesse habitat. Torna-nos também mais conscientes do que tínhamos anteriormente, do que realmente desejamos no nosso país de origem, das suas virtudes e dos seus defeitos, extremando mais ambos os sentidos. Compreendemos melhor pois observamos da montra todo o produto e temos outros objectos de comparação. Viver no estrangeiro é acima de tudo um despertar da consciência para o que realmente somos, vivemos e queremos, por isso a todos sugiro, vivam no estrangeiro nem que seja para esse despertar, depois todo e qualquer tipo de decisão em permanecer fora ou não é convosco e têm todos o meu total apoio, independentemente da vossa decisão...

Amor

"Amor" deve ser a palavra com mais multi-significados que deve existir, até mais do que "justiça" ou "liberdade", imagine-se.
Esta palavra tem um significado tão amplo como a quantidade de pessoas que a conhecem. Se existem palavras ou conceitos que são objectivos e claros quanto ao que representam, este conjunto de letras ultrapassa a sua constituição. Podemos observa-la de forma romântica, científica, meta-física, física, quem sabe não mesmo quântica. Amor pode ser tudo e não ser nada, pode ser uma ilusão ou desilusão, pode significar dor ou prazer, tristeza ou alegria, preenchimento ou vazio, sentimento pode ser algo tão volátil como um vulcão ou tão belo como um pôr do sol, e no entanto, só todo ele no seu ser completo é que se significa claramente. Pois ele só é ele nesse todo que o constitui, o absorve, o contempla, e o envolve.
Confundimos, não raras vezes, este sentimento com muitos outros que até têm alguns elementos químicos em comum, mas não são como ele, tal como a Coca-Cola, são todas parecidas, mas nenhuma é igual à original. Nada tem o mesmo efeito e só quem realmente aprecia a sua essência é que compreende a sua constituição e dá real valor ao que representa. Tal como a bebida, primeiro estranha-se, depois entranha-se e fica de tal forma encrostada em nós que faz parte do nosso ser. Assim, só dando valor ao nosso próprio amor, podemos amar e contemplar o que nos rodeia, tudo mesmo o que nos rodeia...

Valor da vida

Por vezes, só quando perdemos o que temos é que ambicionamos ter o poder de recuperar o que perdemos... Gozamos a vida sempre na procura do que não temos e desejamos isso como algo de fabuloso, lutando incrivelmente para obter tal meta, seja ela física ou meta-física. Pondo de parte o nosso estado, o nosso sentimento, o que temos, o que vivemos, o que sentimos e o que queremos realmente por algo que normalmente nos alimenta de forma néscia e como se de um comprimido da felicidade se tratasse. Infelizmente após o obtermos compreendemos nos momentos seguintes que apenas foi um efeito placebo, que nos irradiou a mente de hormonas e que nos deu um sentimento apenas passageiro e ineficaz. Desejamos então algo mais além, tal como a velha frase de "este ano é que vai ser" dita tantas vezes de forma inconsciente no início de todos os anos, projectando desejos que nunca poderão ser obtidos sem a devida vontade de superação. Engana-mo-nos criando ilusões e vivemos momentos de sufrágio e angústia profunda pois sabemos que isso nunca acontecerá e que semanas depois nem nos recordamos do que desejamos. Queremos ser sempre mais e maiores, mais perfeitos, ou melhor, menos imperfeitos, tentando colmatar todas as brechas e dar-lhes uma pincelada para que ninguém repare que ali se manteve algo aberto, frio e sujo, que nos tornava mais feios e humanos. Queremos ser o que não somos, ter o que não temos, e no fim, desejamos ser e fazer o que devíamos ser e fazer no passado.
Dar valor à vida não é só tentar ser mais perfeito, ou menos imperfeito como queiram, trata-se acima de tudo de dar valor a tudo o que temos, quando temos, e não andar a desejar algo alheio que nos afasta realmente do humano que somos e da nossa real capacidade.