domingo, 26 de abril de 2015

Carta ao Luar

Vieste como sempre, tímida no horizonte, ainda sobre a luz do dia te mostraste, disseste presente, como se a partir daquele momento mais nada fosse mudar, nada fosse mais importante. Surgiste e sem fôlego observei-te calmamente, como se o tempo parasse e mais vento não houvesse. Tens esse poder de sedução, de ilusão e de preenchimento, contigo trazes toda uma nova fase, todo um momento e transformação, tudo se vira para ti e te comtempla, encantas e enfeitiças com o teu brilho, com a tua simplicidade escondida, com a tua ingenuidade maliciosa vais caminhando com passos leves e tiras as roupas da máscara. Cativas e motivas o homem a ser diferente, a ser mais selvagem e animal, a ser, talvez, ele mesmo, aquele que verdadeiramente corre nas suas veias. É difícil não nos apaixonarmos por ti, de não ficarmos horas a comtemplar-te com o elixir alcoolizado que nos percorre os sentidos. És contagiante, intoxicante, de tal forma que perdemos todas as forças e equilíbrio quando te temos só para nós na tela preta que se apresenta ao nosso olhar. Mesmo os outros pontos cintilantes, que tentam chamar-nos a atenção são absorvidos perante a tua presença, o teu traço, a tua destreza de nos encantar, de nos apaixonar. Por isso é tão importante se ser racional e perceber que nos escondes a outra face, a outra que nunca queres que vejamos, que é só para ti e que não reservas a mais ninguém se não àqueles que vão além dos limites para te ver e te ter. Durante muito tempo também eu caí nesse enredo, de ficar horas embrulhado nas tuas redes de vazio e escuridão, pois és só tu, só para ti, como mais nada existisse no momento e no tempo. Hoje sei que existe algo mais belo e feliz do que tu, que afinal és apenas um momento e um sentido que se alimenta dos outros e nunca de si mesmo. Com o tempo, passas, iluminas e desapareces. Continuo a gostar de te ver, de te apreciar, mas não és mais do que o inverso do que desejo, do que sinto, do que procuro. A luz do dia, mesmo na tua presença é bem mais forte, bem mais brilhante e colorida. São o dia e o sol, esses sim que me dão energia e visão daquilo que me apaixona e que me dá orientação. Passamos momentos fabulosos, dolorosos e destruidores, violentamente calmos no sossego e silêncio da noite, mas hoje me despeço mais uma vez, não quero que desapareças, porque dás ainda mais sentido aquilo que realmente tem sentido, e sem o teu oposto, sem o teu contraste, não teria tanto valor viver e me apaixonar todos os dias pelo que tenho, pelo que sou, pelo que me rodeia e me dá tanto. Boa noite e até amanhã... 

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