domingo, 25 de janeiro de 2015

Algumas desmistificações de ser emigrante

Uma constante no ser humano, uma actividade que está presente e quase sempre ocupa a maioria do tempo das pessoas é o juízo de valor sobre algo ou alguém. A análise e crítica é uma constante para a maioria das pessoas, que cada vez mais vivem o exterior e a superficialidade, sem conhecimento, sem procura, sem apreciação calma e reflexa do que se apresenta perante o seu olhar. É como não existisse filtração conceptual do impulso que é obsorvido e esse conteúdo fosse automaticamente reproduzido em avaliação final sobre o produto. Um género de fast food sem valor nutricional algum e muitas vezes de forma ampla com elevadas doses de desperdício da matéria existencial. Assim, as pessoas nas teias que desenvolvem com seres da mesma forma e génese, contemplam a vida dos outros, não a real e significativa, mas aqueles que eles vêem e aceitam como verdadeira. A visão do emigrante esplana-se a todo o comprimento no sentido desta avaliação de valor. A ideia do emigrante rico, forte, poderoso, faz lembrar a mistificação que se fazia dos dragões, polvos e sereias, pelos navegadores sobre o novo mundo. Esse sim, pelo menos era mesmo desconhecido e por isso possível de dar assas à imaginação. O emigrante apresenta-se ainda como um ser com uma aura praticamente intocável, como se fosse um ser que foi apresentado e aceitado pelos deuses. Contudo a verdade, a real, é bem diferente. Primeiro, nem todos os que emigram, emigram porque tem que ser, porque foram rejeitados no país que nasceram ou algo semelhante, existem vários que o fazem porque realmente querem viver e experienciar uma nova e diferente realidade. Segundo, nem todos, para não dizer a grande maioria, dos emigrantes se torna rico e poderoso, muitos são aqueles que vivendo perto da miséria se apresentam pelos portões da sua rua com coches banhados a folha de ouro falso. Para os que têm dinheiro, se calhar têm porque poupam e trabalham ao máximo, não tem regalias nem esbanjam em caprichos e vícios. Terceiro, muitos dos emigrantes não foram afortunados em saírem do país, não ganharam um bilhete mágico para ir no expresso do oriente e viverem a aventura de sonho, não, tiveram que deixar tudo o que lhes era cómodo, tudo e todos os que lhes eram conhecidos e ir em busca de renascer num ambiente novo, estranho, e por isso hostil. Quem ficou, muitas vezes ficou porque quis, porque lhes era mais preguiçosamente conveniente. Quarto, o emigrante não se torna, por estar num país diferente, um ser possuidor de uma cultura extraordinária, inatingível, muitos deles continuam a viver exactamente a mesma vida que tinham na sua autoctonia, e por isso sem embarcar na obsorção de novos estímulos e conhecimentos embargando o desenvolvimento intrínseco. Por último, no estrangeiro não é tudo perfeito e megalómano, existem pessoas boas e más como em todo o lado, aspectos melhores, outros piores, outros diferentes, países e culturas mais familiares ou não, uma expedição de item que só é apreciado de forma pessoal. Ou seja, não deixámos de ser humanos, com problemas e vivências quotidianas, não passamos a heróis intocáveis nem em seres afortunados nas mais variadas categorias e formas. Simplesmente somos pessoas que vivemos fora do país de origem, cada um com o seu caminho e a sua vivência.

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