terça-feira, 24 de maio de 2011

Anjos e Demónios

O ser humano encanta-me, pela beleza da sua imperfeição, é em todo ele desequilibrado e desorientado. Procura a perfeição sempre através de modelos externos, tentando integra-los como próteses da sua personalidade mental e corporal, mas não compreendendo que a devida imperfeição parte das suas próprias ortóteses, aquelas que esconde de todas as formas possíveis, não percebendo o quão ténue é o seu véu.
Ilude, ou melhor, procura iludir os outros não antevendo que a ilusão maior está dentro de si, finta pensamentos e sentimentos, como se objectos imóveis se tratassem, não compreendendo a volatilidade destes.
Vive enganado na mentira da sua irrealidade, porque o consola, o satisfaz, não o confronta com o seu próprio ser. Apesar de ser o reflexo perfeito, não aquele que se vê no espelho, ignora-o ou não o reconhece, ou pelo menos tenta, pois com certeza e apesar de todo o esforço, o seu inconsciente será sempre mais poderoso que o seu consciente, e esse apesar de retraído, será sempre aquele que comanda o ser.
Aos nossos olhos todos os outros são anjos e demónios, tudo depende do conhecimento parcial ou total que temos deles. Julgamos-os como seres totalmente definidos e característicos, como se fossemos eles, mas não somos, aliás muitos de nós, não somos sequer nós, somos um nós disfarçado de anjos, cometendo os mesmos erros desses demónios, mas que perante tais dizemos "Eu? Jamais..."
Estúpido é aquele que não se reconhece, dá valor ao que é, e inteligente é aquele que sabe o que é, o pratica, o integra e vive, e ri de si, aprecia por ser assim...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cegueira Proximal

No outro dia estava a ver um programa de tv, não por acaso um concurso de dança, e a apresentadora dizia algo parecido com "por vezes o potencial está tão próximo que nem o vemos". Referia-se no entanto não a um(a) candidato(a) dançarino(a) ou bailarino(a), mas sim a uma jovem promessa da música que antes do seu single se tornar mediático, trabalhava num bar a servir às mesas. Não estando aqui a denegrir a profissão, que é tão válida e deve ser reconhecida como todas as outras de igual forma, não é para todos, esta rapariga passou em duas semanas a ganhar em vez de uns dólares por hora, uns bons milhares. Coisa que provavelmente não ganharia num ano talvez. Isto por ter sido ouvida por alguém de renome na internet...
Para além do potencial da internet, já anteriormente reconhecido, e não é por aí que o pensamento pretende ir hoje, a questão prende-se mais com a quantidade e qualidade de potencial existente em pessoas que olhamos por vezes para elas como se fossem apenas mais uma. O ser humano tem uma grande tendência para não reconhecer devidamente o seu próximo, o distante e desconhecido é sempre melhor e mais alto. Só porque as suas características são mais difusas e desconhecidas, o lado misterioso torna-o mais apetecível. Usamos e deitamos fora muitas vezes o que já conhecemos e queremos sempre o que aparentemente é mais belo, mais fascinante e brilhante e não compreendemos que todo esse brilho não é nada mais que pequenos holofotes apontados a um produto tão ou menos capaz do que o temos. Com as pessoas passa-se o mesmo, não fosse o ser humano tão pouco ele humano e não trataríamos as pessoas como muitas vezes tratamos de qualquer outro objecto. Passados meses, muitas vezes anos, é que reconhecemos que realmente que "aquilo" é que tinha valor, "aquilo" é que era bom, e foi pena não se ter aproveitado melhor o que "aquilo" nos tinha para dar. Infelizmente, as pessoas não aprendem a dar valor ao que têm, e assim vai continuar a ser, enquanto olharem para o longínquo, desconhecido, o mascarado, em vez de olharem para toda a beleza circundante. Muitas vezes sendo ela tão bela e perfeita que se trata de um diamante jogado no mar...